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Na falta de comida, biscoito de barro
- Povo
se sustenta com mistura de argila, banha, água e sal cozida
sob o sol do Caribe
A
notícia caiu na internet como um tijolo: "Haitianos
famintos estão comendo terra". Culpa-se a inflação
nos preços de alimentos e, por tabela, até a super
produção de biocombustíveis. Cana e soja estão
ocupando no mundo, os espaços que antes pertenciam ao arroz
e feijão, diz Jean Ziegler, relator da ONU para o Direito
à Alimentação. Mas não há novidades
na gastronomia de horrores caribenha. No Haiti, a argila amarela
da cidade central de Hinche faz parte do menu diário, há
séculos. A situação da desnutrição
atingiu paroxismos nos últimos três meses, quando os
preços dos gêneros alimentícios aumentaram 50%.
Só recentemente, porém, o público internacional
notou as bolachas de terra vendidas nos mercados do país.
Há
anos, quem anda pelo terreiro aos pés do Fort Dimanche –
a antiga prisão juvenil e atual favela – encontra o mercado
e a fábrica das bolachas de terra. Mulheres agachadas na
rua estendem discos de argamassa em grandes placas de zinco. A receita
deste biscoito grosso para as massas é simples: argila, banha,
água e sal. Forma-se uma pasta amarela, moldada em pequenos
círculos. O cozimento fica por conta do sol infernal: em
pouco mais de uma hora, o produto final está pronto para
a venda.
Carestia
Em
1994 – durante a invasão militar americana que restaurou
ao poder o presidente exilado Jean-Bertrand Aristide – a bolacha
custava dois centavos de dólar. Naquela época, só
os cães e ratos estavam gordos: devoravam os cadáveres
das pessoas mortas pelas gangues defensoras da junta militar que
comandou o país. Em dezembro passado, o quitute de barro
subiu para 4 centavos. Hoje a unidade está a cinco centavos.
–
Aumentou o preço da terra. Um latão está custando
US$ 1.50 – explica a assistente social da ONU, Marie Mandel.
Comparado
com os preços de outros alimentos - dois copos de arroz à
60 centavos, por exemplo – o biscoito de terra é barato.
–
Carne, nem pensar – diz Mandel. – As poucas chances de se comer
carne vinham das capturas de cães e pássaros. Mas
até estes estão sumidos. Os ratos proliferam, mas
são mais difíceis de pegar. E um rato adulto chega
a US$ 1.
Em
1994, alguns repórteres que cobriam a invasão americana
participaram de uma sessão de degustação do
biscoito de barro. Concordaram com um jornalista americano que,
com humor negro, deu o veredicto: "Deixa um gosto de terra
na boca. Com toques de gordura". Notava-se também a
secura imediata de todo o palato, deixando o comensal desesperadamente
sedento. Os goles d'água, que ajudam a empurrar a comida,
reconstituem a consistência original da argamassa. O resultado
é um bocado de lama no estômago.
Gabriel
Thimothee, diretor executivo do Ministério da Saúde
do Haiti, disse ao JB, por telefone, que os casos de cirurgias gástricas
aumentaram 25% nos hospitais do país nos últimos seis
meses.
–
O paciente chega reclamando de cólicas e dificuldades de
evacuar. As cirurgias de estômago ou intestino revelam blocos
sólidos, como pedras, no interior dos órgãos
– conta.
O
barro vira tijolo no interior das pessoas. E a geofagia – o hábito
de comer terra – vai continuar, pois o solo é tão
pobre quanto os homens. Há séculos a exploração
predatória, a falta de chuvas e os desmandos políticos
acabaram com a agricultura neste pedaço da ilha que foi apelidada
pelo descobridor Cristovão Colombo de Isla Esmeralda, por
causa de seu verde.
Osmar
Freitas Jr - Nova York | Portal do Terra |