História da Fundação | Lar Bom Repouso

História da Fundação

Era ano de Copa, década do “Milagre Econômico” e desenvolvia-se aceleradamente a construção civil. A paisagem da cidade, entretanto, estava diferente. Por onde se andava e se olhava, nas ruas, deparava-se com a indigência: gente pobre e andarilha a estender as mãos, a envergonhar os que passavam sonhando com um mundo decente e digno, como acontece até hoje. A cidade de São Paulo e o seu entorno, particularmente a região do ABC, funcionavam como pólo de atração de migrantes nordestinos, que chegavam em busca de trabalho, sonhando com melhores dias, expulsos de seus lugares de origem, onde somente havia miséria e fome.

Aqui, eles aportavam diariamente aos milhares, muitos deles sem quaisquer qualificações profissionais. Despreparados para desempenharem atividades mais qualificadas, iam, quase que na sua totalidade, para a área da construção civil, onde eram contratados e colocados em alojamentos, que mais pareciam guetos, do que moradias decentes.

Alguns jovens e outros não tão jovens, assim verificaram que não havia na cidade nenhuma entidade assistencial que desse abrigo a esses indigentes. Constataram, também, que as pessoas preferiam ajudar as crianças e os velhos. Aos primeiros, porque encantam, são inocentes, dão alegria, e aos últimos, porque são ou parecem avós e estão sem forças, incapazes de qualquer reação.

A instituição teve seu início com a iniciativa de alguns indivíduos, que foram movidos pelo bem que há em todos os seres humanos, os quais, ainda que por alguns momentos, por impulso ou intuição, podem fazer algo pelo próximo e para o bem estar de seus próprios corações. Em geral, pungidos pela dor dos semelhantes, partem para a ação sem muitos questionamentos. A caridade tem esta natureza: não pergunta, não pede explicações, não faz exigências. Não se interessa a mão esquerda pelo que faz a direita. Transcorria o ano de 1974.

O grupo de jovens estava prestes a completar um curso de evangelização cristã no CENTRO ESPÍRITA IRMÃ ITÁLIA, instalado num pequeno salão nos fundos de uma humilde casa operária na Rua Amazonas, em São Caetano, nº 986, cedido pelo Sr. Antônio Crica, homem extremamente bondoso, generoso e espírita, que residia nos cômodos da frente com a família.

Essa gente, que vivia perambulando pelas ruas sem sequer uma mão amiga para ampará-los, possuía características de quem carregava pesados fardos de infortúnios e dores. Muitas destas pessoas experimentavam a dor da fome, do desamparo, doenças crônicas e amputações. Essa gente, que exalava mau cheiro e tinha olhares desconfiados e fisionomia tristonha, carregava histórias melancólicas. Para aliviar estas dores, procuravam, sobretudo, bebidas, drogas e o que quer que pudesse lhes fazer esquecer suas tristes histórias.

Os voluntários fundadores de nossa instituição, os quais teriam preferido começar suas atividades assistenciais fundando uma creche, mas considerando as contingências ditadas pelos fatos, acabaram fundando um albergue noturno. Quando se lembram dessa época, concordam que não sabiam pequena fração do que os esperava. Não estavam preparados, confessam. Foram movidos por compaixão, nada mais do que isso. Entre os jovens e os velhos, teriam todos de se preparar para tal empreitada, uma vez que nem os órgãos oficiais e nem mesmo as faculdades de serviço social sabiam lidar com a extensão, a gravidade e a variedade de problemas que afrontavam a sociedade.

Diante dessa realidade e na emergência de ter que socorrê-los, foi então rapidamente instalada a sede do “Lar Bom Repouso”, na Avenida Goiás n° 2319, em casa de muitos cômodos grandes, mas alugada. Logo, se viu repleta de gente pobre, de miseráveis, que consumiam uma quantidade enorme de pratos de sopa, milhares de pães, medicamentos, passes de ônibus, roupas, calçados, sabão, encaminhamentos para trabalho e hospitais, enfim tudo que pessoas sem casa e sem dinheiro precisam.

As despesas cresceram, na proporção dos assistidos: mais de 1.500 pernoites a cada mês!

Ao pequeno grupo, foram se juntando mais alguns voluntários, alguns deles pessoas maduras, homens e mulheres, ferramenteiros, engenheiros, advogados, corretores, médicos, empresários, donas de casa, todos com boa vontade. Eles merecem uma justa homenagem. Muitos, desencorajados diante da hercúlea tarefa, desertaram. Mas, apesar disso, alguns poucos que ficaram fizeram-se fortalecidos, felizmente!

O quadro de sócios, o conselho e a diretoria foram mudando e se alternando no comando da instituição. Mas o ideal do início permaneceu e nenhum dos dirigentes, até hoje, é remunerado, todos sendo voluntários até os dias de hoje e para sempre.

Os nomes dos fundadores, diretores e principais benfeitores? Não interessa! Que a mão esquerda permaneça ignorando a caridade da direita. É o melhor para esta história.

Em 1975, para arrecadar recursos e construir sua própria sede, o grupo promoveu e lançou uma grande festa intitulada “As Noites Italianas”, sendo oito noites de comidas italianas, shows artísticos, bingo e barracas diversas.

Esta festa foi o ponto de partida para a consolidação do projeto de construção de um prédio de 3.500 metros quadrados, na Alameda Cassaquera, 227, atual sede da instituição, cujo terreno foi doado pela prefeitura do município, pela generosa interferência da Sra. Maria Braido, esposa do então prefeito, o Sr. H. Walter Braido.

Primeiro construiu-se o muro de arrimo do terreno, que é bem inclinado e irregular, com um prédio que pudesse atender e acolher os desafortunados, os quais foram transferidos da casa que era alugada. Pouco a pouco e muito demoradamente, pois dispendioso, caro e em sua maior parte, construída com recursos doados por dois diretores da instituição, foi surgindo o prédio que hoje é a sede. Desde o seu começo, jamais a instituição deu conta da demanda, devido à pobreza, à doença espiritual e física, à penúria dos seus assistidos e, assim sendo, passou a dar preferência aos que estavam enfermos. Portanto, a partir de 1983 em diante, ela foi se transformando, em decorrência do atendimento, numa unidade de auxílio a doentes, uma unidade pára-hospitalar de auxílio a pessoas enfermas, abandonadas ou convalescentes.

Continuamos não dando conta da demanda; fazemos o que podemos, sem a pretensão de achar que resolveremos todo o problema. Com simplicidade, seguimos o coração. Sabemos que a verdadeira caridade é maior e mais abrangente. A caridade, como escreveu Paulo de Tarso em uma de suas belíssimas epístolas, não folga com a injustiça, não é conivente, não é omissa, não se ensoberbece, nem perde a paciência.

O outro lado da História – Seus Bastidores Espirituais…

Todo dia 23 de maio de cada ano que passa é data muito especial para todos nós, freqüentadores do Lar Bom Repouso e do Centro Espírita Casa Grande do Caminho, quando ambas as casas completam mais um ano de existência e de trabalho incessante e ininterrupto.

O Lar Bom Repouso nunca baixou suas portas, dia nenhum desde sua fundação: sábados, domingos, feriados, os chamados dias santos, nem mesmo por ocasião do Natal e final de ano, carnavais, semanas santas e muito menos pontos facultativos.

Na antevéspera desta data, portanto na noite do dia 21 de maio de 1974, foram colhidas assinaturas para a ata de fundação do Lar Bom Repouso, daqueles saudosos irmãos que já se encontram no plano espiritual. No dia seguinte, 22 de maio, já tendo esta nossa ata sido devidamente registrada em cartório, iniciavam-se imediatamente os trabalhos para a concretização de um antigo sonho acalentado por muitos abnegados velhinhos freqüentadores do singelo Centro Espírita Irmã Itália, que até hoje exerce suas atividades, situado à Rua Amazonas nº 986. Naquele tempo, o Sr. José Carlos e sua esposa Dona Margherita freqüentavam esta mesma instituição e tinham muita honra em presidi-la. Este sonho de construir uma casa de caridade que funcionasse nestes moldes não era somente do Sr. José, de sua esposa e nem tampouco de seus irmãos, freqüentadores daquele centro, naquela época. Era sim, um ideal da Espiritualidade Maior, compartilhado pelo nobre espírito do Doutor Albert Schweitzer.

Esta obra, idealizada na época, haveria de ser semelhante à Casa do Caminho, do tempo dos Apóstolos. E, de fato, com a ajuda de Deus e dos Espíritos Superiores, além do trabalho e incentivo de irmãos do já mencionado Centro Espírita Irmã Itália, foi alcançado, com muito esforço, nesta data que relembramos, o sonho de fundar legalmente esta instituição.

Ao longo do mesmo ano, cinco meses após sua fundação, exatamente no dia 13 de outubro, também com muito esforço, dificuldades e a duras penas, iniciara-se uma obra de acolhimento de pessoas, inaugurada em duas casas, em um só terreno, ambas alugadas, situadas à Avenida Goiás nº 2.319. Muitos reparos foram necessários nas duas casas, bem como mobiliá-las simples e humildemente, mas prontas para receberem os primeiros “hóspedes de Jesus”, como são chamados pelos espíritos, nossos irmãos abandonados que necessitam de todo nosso amparo. Estas duas casas deram origem à primeira versão do que viria a ser o atual Lar Bom Repouso, sendo, portanto, naquela época, sua sede provisória. Funcionando por 8 anos iniciais, de 1974 a 1982, ali foram atendidas mais de 15 mil pessoas, entre elas, moradores de rua, indigentes, desagregados e até, por diversas vezes, famílias inteiras. Muitas destas pessoas eram portadoras de doenças crônicas, deficiências físicas, alcoolismo; enfim, gente que trazia consigo todo tipo de desajuste social e perturbações psíquicas e espirituais.

Neste período de funcionamento, na primeira sede, era freqüente e mais até do que nos dias atuais, desencarnarem pessoas que estavam aos nossos cuidados. Isto acrescentava às nossas, já grandes responsabilidades para com aquelas pessoas, mais uma série de trabalhos e dificuldades legais e financeiras, já que muitas vezes era a instituição que arcava com todas as providências do funeral das mesmas.

No mesmo dia em que abria-se a sede provisória do Lar Bom Repouso, lançava-se solenemente às dez horas da manhã, no exato local onde encontra-se instalado hoje nossa sede própria e definitiva, a Pedra Fundamental desta obra, em ato público e na presença do então Prefeito Municipal, Exmo. Sr. Hermógenes Walter Braido e sua esposa, a Primeira Dama e benfeitora do Lar Bom Repouso, a generosa Sra. Maria Braido, pessoa a quem, ambas as instituições muito devem, pois foi através de seu empenho e boa vontade, que conseguimos a doação deste terreno em regime de comodato por dez anos, renovável por mais dez, para que pudéssemos erguer em definitivo nossa sede.

Contávamos também com a presença de várias autoridades do município, amigos, convidados, fundadores, que haviam assinado a ata e mais diversos confrades, totalizando cerca de cento e cinqüenta pessoas.

Um dia memorável. O céu estava ensolarado e o clima era ameno. O sol de nosso Criador nos cobria alegremente. Uma leve aragem soprava suave e fresca nos saudando e nos abençoando, naquela ocasião tão especial.

Através da vidência segura da médium Dona Margherita, soubemos, dias depois, que durante a realização daquele evento, encontravam-se presentes, alegres e até comovidos, diversos espíritos superiores como Dr. Bezerra de Menezes, André Luis, Albert Schweitzer, Cairbar Schutel, o alemão Adrianus, Eurípedes Barsanulfo, o Batuíra, nosso querido Pai João e sua equipe que nos assiste, acompanhado de vários tarefeiros espirituais, como Tiãozinho, Bernardo, Antônio, Inácio e muitos outros.

Oito anos se passaram desde a assinatura da ata de fundação e da abertura da primeira sede do Lar Bom Repouso e, finalmente, em 1982, o Lar Bom Repouso é definitivamente instalado em sede própria, onde até hoje encontra-se em trabalho ininterrupto.
Muitos de nós têm escrito as páginas da história do Lar Bom Repouso e do Centro Espírita Casa Grande do Caminho, desde sua fundação. Nestas páginas, estão registradas milhares e milhares de histórias, das mais diversas origens, mas todas com algo em comum: a dor, o sofrimento e a expiação, por parte das pessoas que as viveram na presente encarnação.

Todos que aqui vieram, sempre encontraram um lenitivo, um bálsamo para suas cansadas almas e corpos famintos e enfermos. Recebemos, diariamente, irmãos acometidos por toda espécie de doenças físicas e espirituais, úlceras, cânceres, mutilações, chagas, seqüelas resultantes de anos de alcoolismo e obsessões espirituais das mais graves. Aqui, recebem o amparo fraternal e solidário de que tanto necessitam, como alimentação, abrigo, higiene, cuidados médicos e odontológicos e o conforto espiritual. Muitos deles, ao longo destes anos, se utilizaram do Lar como sua última morada, aqui desencarnando. Cumprem, assim, sua desdita.

Este tem sido o grato e honroso ofício do Lar, ao longo de seus 34 anos de existência e, por outro lado, como instituição, tem zelado da melhor forma possível e com grande esforço de seus amigos e tarefeiros, não só pelo bem estar de seus internos, mas também pela manutenção, conservação e melhoria constantes, além da maior transparência e competência possíveis em sua gestão. Isto, por sua vez, implica na lida diária junto às autoridades do município, da comunidade local em geral, da legislação existente em âmbito estadual e federal e uma infinidade de outras responsabilidades diárias, sem as quais uma obra desta natureza não poderia ser levada adiante, desde seu princípio.

E, não obstante todas as dificuldades, esta instituição nunca teve o mau hábito de bater à porta de órgãos públicos em busca de subvenções, como fazem muitas outras. Veio caminhando com suas próprias pernas, passo a passo, devagar, consolidando-se dia-a-dia e com isso proporcionando aos Espíritos Superiores que aqui trabalham e exercem suas difíceis e múltiplas tarefas, a segurança necessária para o desenvolvimento das mesmas, que , em última análise, ajudam na evolução espiritual de seus internos e dos freqüentadores deste centro.

O Lar Bom Repouso, portanto, vem desempenhando seu papel no aspecto doutrinário de sua razão de ser, sempre fiel ao insigne Codificador e à própria Doutrina Espírita. Prova disto é seu reconhecimento por parte da FEB, Federação Espírita Brasileira, pelo CEI, Conselho Internacional Espírita e pelo CFN, Conselho Federativo Nacional, os quais nos prestigiaram com suas presenças em nossa casa, entre os dias 28 e 30 de abril do ano de 2006, durante a reunião anual do Conselho Federativo Nacional da Região Centro-Sul. Esta distinção, em escolher o local de uma obra espírita como sede deste evento, foi um acontecimento único na história da FEB, fato este que foi inclusive registrado pela centenária Revista Reformador, na edição de junho de 2006.

Devemos destacar, que o Lar Bom Repouso sempre primou por sua idoneidade, superando suas dificuldades financeiras sem onerar, ferir ou constranger o bolso de quem quer que seja, nem mesmo por meio de solicitações diretas de doações em dinheiro, nem por meio de circunlóquios ou insinuações interesseiras, muito comum em outras instituições. Tanto é verdade, que aqui sequer fazemos campanhas de arrecadações em dinheiro de nossos membros e muito menos de seus freqüentadores. Nunca tivemos ou desenvolvemos quadro de sócios mensalistas, que são até admitidos por Allan Kardec. A bem da verdade, os recursos financeiros chegam à nossa casa pelo fruto único e exclusivo do trabalho, do serviço e esforço de cada um de seus amigos tarefeiros, através de promoções diversas. Nossa motivação tem sido o amor ao Evangelho e à doutrina espírita, os quais são fundamentados na prática e no exercício da caridade.

Nesta oportunidade, a qual nos lembramos agradecidos da existência de ambas as instituições, seria uma injustiça, uma ingratidão e indelicadeza injustificáveis, que cotidianamente nos servimos dela, pois é aqui neste Lar e centro que saciamos nossa inclemente sede espiritual, não nos lembrarmos de prestar justo reconhecimento e homenagem, com comovido sentimento de eterna gratidão, a Dona Margherita, que tanto temos nos utilizado de sua mediunidade diamantina e de sua pessoa generosa, prestativa e caridosa, atendendo e servindo milhares e milhares de pessoas, tanto encarnados como desencarnados, em nome do Santo Evangelho.

Todavia, acreditamos e temos a firme convicção de que, nesta presente encarnação, ela abraçou com denodo e responsabilidade seu mandato mediúnico, com fidelidade incomum, durante quase 40 anos e vem, de forma exemplar servindo os espíritos e guias e, conseqüentemente, a grande nobre causa e a todos nós em particular, fornecendo-nos incansavelmente todo o suporte mediúnico correto e seguro, totalmente destituído de laivos de vaidade ou conduta reles, ao contrário, sua conduta moral exemplificada e sincera, sua renúncia, dedicação e perseverança ao trabalho, sem afetação; no silêncio, sobriamente e com amor. Sem tudo isso, podemos afirmar, sem medo de errar, temos a plena convicção de que seria inviável o equilíbrio espiritual sustentado a todos nós e a ambas as casas, proporcionando durante todos esses anos a fecundidade e progresso plenamente, justificando os objetivos pelos quais foram criadas.

Podemos aqui expressar nossos sentimentos de gratidão pela honra que a espiritualidade superior nos dá de podermos ser obreiros de Jesus em uma casa como o Lar, que tem como lema imorredouro o moto
“FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO!”

Instituição Assistencial Espírita

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